História - O Boi Voador

segunda-feira, 16 de maio de 2011




Dentre as grandes obras desenvolvidas pelo Conde de Nassau, assinale-se às construções de duas pontes sobre o rio Capibaribe. A primeira unia o Recife à cidade Maurícia, na altura da atual ponte Maurício de Nassau, e uma outra que tinha sua cabeceira leste na Casa da Boa Vista e se estendia até o continente, ambas obedecendo a projeto encaminhado ao Conselho dos XIX, em 31 de março de 1641, juntamente com o mapa de Cornelis Sebastiaenszoon Golijath: Mauritiopolis Reciffa et circumjacentia castra.8 Tal mapa reaparece em 1648, em edição publicada por Claes Jaens Visscher, ilustrado com desenhos de Frans Post.

Inicialmente para a construção da primeira ponte foi contratado o pedreiro português Manuel Costa, que fez erguer no talvegue do rio um pilar com 12 pés de comprimento (3,66 m.) por 8 pés (2,44 m.) de largura, de modo a estudar a força das correntes. Através de um edital, datado de 25 de janeiro de 1641, foi aberta uma espécie de concorrência pública visando à empreitada da obra de construção. Depois de alguns acertos, a obra foi acertada com o judeu Balthasar da Fonseca, que estimou em dois anos o prazo de conclusão dos trabalhos, cobrando para isso a quantia de "240.000 florins e uma dádiva de 1000 patacas (moeda antiga de prata, que valia 320 réis) em espécie para a sua esposa no caso de vir a casar".

No final de 1642 haviam sido concluídos "quinze pilares e a cabeceira de pedra do lado de Maurícia e parte de madeira correspondente pronta para ser assentada, já estando postas várias vigas de um pilar para o outro". No início do ano seguinte, por dificuldades na execução dos trabalhos no trecho mais profundo do rio, as obras estiveram suspensas. Tal fato veio provocar censura escrita do Conselho dos XIX que, em carta datada de Amsterdã, em 24 de outubro de 1643, indaga em tom irônico: "como não recebemos há muito tempo notícia da ponte faz-nos isto pensar que a mesma nunca será terminada".

Tal provocação mexeu com os brios do Conde de Nassau que resolveu tomar para si a tarefa de conclusão dos trabalhos, utilizando-se para isso de seus próprios recursos. Para os montantes da ponte foram empregadas estacas de madeira, "com 40 a 50 pés (12 a 15 m.) de comprimento, impermeáveis à água pela dureza", tendo sido cravadas, com auxílio de martelões, no leito do rio, umas verticais outras oblíquas, para obedecerem a correnteza, na profundidade de até doze pés (3,66).

Comenta José Antônio Gonsalves de Mello, estribado em narrativa de frei Manuel Calado, que no domingo, 28 de fevereiro de 1644, estava a ponte concluída, "podendo-se cavalgar por ela ou atravessa-la a pé". A ponte dispunha de duas cabeceiras em pedra e quinze pilares do mesmo material, completada por dez outras de madeira. Em suas cabeceiras, segundo frei Manuel Calado, foram esculpidas as armas do Príncipe de Orange e as da Casa de Nassau e, na outra extremidade, foi gravada em uma pedra larga a inscrição: Fundabat me illustrissimus Heros Ioannes Mauricius Comes Nassaviae, Ec. Dum In Brasilia Terra Supremu Principatum Imperiumque Teneret.Anno Dni. MDCXXXX.

O Conde de Nassau, por sua vez, quando da inauguração da ponte do Recife, resolveu fazer uma brincadeira com os moradores que, graças ao registro do frei Manuel Calado, testemunha ocular, entrou na memória coletiva do nosso povo. A fim de obter um maior número de pessoas pagando pedágio na ponte, no dia da sua inauguração, João Maurício anunciou que um boi manso, pertencente Melchior Álvares, iria voar. O episódio nos é contado de maneira saborosa pelo frei Manuel Calado, em sua crônica.

E para o primeiro dia que a gente havia de passar por a ponte grande para o Recife, ordenou o Príncipe uma festa, e convidou aos do supremo Conselho a comer; e a festa foi que mandou esfolar um boi inteiro, e encher-lhe a pele de herva seca, e o pôs encoberto no alto de uma galeria que tinha edificada no seu jardim; e logo pediu a Melchior Alures (Álvares) emprestado um boi muito manso, que tinha; o qual como se fora um cachorro andava entrando por as casas, e o fez subir ao alto da galeria, e depois de visto do grande concurso de gente que ali se ajuntou, o mandou meter dentro em um aposento, e dali tiraram o outro couro de boi cheio de palha o fizeram vir voando por umas cordas com um engenho, e a gente rude ficou admirada, e muito mais a prudente, vendo que com aquela traça ajuntara ali o Conde de Nassau tanta gente para a fazer passar pela ponte, e tirar aquela tarde grande ganância, e tanta gente passou de uma para outra parte, que naquela tarde rendeu a ponte mil, e oitocentos florins, não pagando cadapessoa mais que duas placas à ida, e duas à vinda. No seguinte dia fez o Conde de Nassau outro banquete às damas, e a quantas taverneiras havia no Recife, e as mais delas emborrachou, e com isto se deu por despedido de Pernambuco.

No uso da ponte foi estabelecido um pedágio de dois stuivers (vigésima parte do florin), "cobrando-se aos escravos e soldados 1, aos cavaleiros 4 e aos carros de bois 7 cada um".

Mais duas pontes foram construídas pelo Conde de Nassau, uma unindo a Casa da Boa Vista, concluída em 1643, ao continente e uma outra unindo o dique dos Afogados ao forte Príncipe Guilherme.

A Casa da Boa Vista fora erguida no local hoje ocupado pela parte antiga do Convento do Carmo do Recife, cujos fundos dá para a atual rua Tobias Barreto. Era esta ponte sustentada por estacas de madeira, ficando-lhe sobranceiro "o palácio da Boa Vista, muito aprazível alegrado também por jardins e viveiros criatórios. O conde edificou em terreno seu e à própria custa".9

Naquele remanso, descansava Nassau, rodeado pelavista das suas construções e longe da pátria e das terras de tantos condes e príncipes seus parentes, gozando da felicidade que achara no ultramar. Contemplava astros nunca vistos pela sua Alemanha; admirava a constância de um clima dulcíssimo e mostrava aversão à intempérie da zona temperada onde vivera. [...] Enfim meditando, encerrava dentro do âmbito da Boa Vista o múltiplo benefício do céu, da terra e do ar, a República, o inimigo, os índios, os holandeses, as conveniências e proveitos das Províncias Unidas.

  A primitiva ponte da Boa Vista foi construída sobre estacas de guabiraba (?), madeira resistente à água das marés, dispostas em linha reta até o talvegue do rio, defletindo em ângulo obtuso e seguindo em direção ao casario que se erguia na altura do que veio a ser a Rua de São Gonçalo, denominação depois mudada para Rua da Glória, nas proximidades do cemitério dos judeus, segundo se depreende do mapa do Recife elaborado por Cornelis de Golijath (1648).

Essas obras de engenharia vieram impressionar os seus contemporâneos, inclusive o próprio padre Antônio Vieira que, no seu Sermão de São Gonçalo, assinala: "cousa digna de grande admiração e que mal se poderá crer no mundo, que havendo 190 anos que dominamos e povoamos esta terra e havendo nela tantos rios e passos de dificultosa passagem, nunca houvesse indústria para fazer uma ponte".

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